sábado, 26 de abril de 2014
sexta-feira, 25 de abril de 2014
quarta-feira, 23 de abril de 2014
terça-feira, 22 de abril de 2014
quarta-feira, 16 de abril de 2014
segunda-feira, 14 de abril de 2014
domingo, 13 de abril de 2014
quarta-feira, 9 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
quinta-feira, 3 de abril de 2014
ANTÓNIO RAMOS ROSA
O único sabor
António Ramos Rosa
a Manuel Pinto
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor de um relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.
|
António Ramos Rosa
terça-feira, 1 de abril de 2014
ÁLVARO MAGALHÃES
ÁLVARO MAGALHÃES
14 de Março de 1951
QUANDO FOR GRANDE QUERO SER UM BRINCADOR
em “O Brincador”
Quando for grande quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber:
não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor....
Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.
Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador,
muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador
e também imaginar, como imagina um imaginador…
A minha mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida.
E depois acrescenta, a suspirar: ” é assim a vida “.
Custa tanto acreditar!
Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes,
mas já não podem brincar.
A vida é assim?
Não para mim.
Quando for grande, quero ser brincador.
Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta.
Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar depois de morta.
Na minha sepultura, vão escrever:
” Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs, para ir brincar com as palavras
14 de Março de 1951
QUANDO FOR GRANDE QUERO SER UM BRINCADOR
em “O Brincador”
Quando for grande quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber:
não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor....
Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.
Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador,
muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador
e também imaginar, como imagina um imaginador…
A minha mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida.
E depois acrescenta, a suspirar: ” é assim a vida “.
Custa tanto acreditar!
Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes,
mas já não podem brincar.
A vida é assim?
Não para mim.
Quando for grande, quero ser brincador.
Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta.
Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar depois de morta.
Na minha sepultura, vão escrever:
” Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs, para ir brincar com as palavras
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